segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Os quatro elementos

Não sei se os que dizem que a água lava e leva tudo têm, de todo, razão. Quando cometemos erros absurdos e passíveis à vergonha, pensamos logo que, um dia, poderemos enxergá-los como borrões na memória. Entretanto, os que cometem erros também sabem que, na maioria das vezes, por mais que tentemos apagar determinados fatos ou impressões de fatos, não obtemos sucesso. Sucesso, aqui, consiste em não-lembrança, o que difere, e muito, de esquecimento. A não-lembrança implica apagar completamente o que ocorreu da mente, como se, realmente, nunca tivesse ocorrido. O esquecimento não tem, em si, todas as características do não-lembrar, visto que, nele, mesmo que não lembremos, os fatos passados ainda permanecem conosco.
Não, a água não lava e, menos ainda, leva tudo. O tempo ainda tem seus méritos, mas eles se perdem e sucumbem ao próprio tempo. Pois, com o tempo, até o que se apagou com o tempo volta a nos atormentar, e, mais tempo levamos para perceber que nem o tempo destrói as marcas do que se consolidou pelos nossos atos...
Fácil seria se pudéssemos atirar ao vento tudo o que nos faz menos completos, menos sensíveis, menos humanos. No entanto, nem mesmo o vento é capaz de engolir tanta coisa. O vento é vento porque não tem culpa de si, nem de ser, diferentemente dos homens, que são sem poderem ser de verdade. Ser de verdade não é existir materialmente, mas entender que a água ou o tempo não são donos dos nossos pensamentos e, tampouco, das nossas ações. E, se é assim, não podemos, portanto, simplesmente atirar a eles o que não queremos mais.
Quando não queremos mais determinados sentimentos, lembranças e impressões, tendemos a nos esforçar para submetê-los ao nosso cômodo e quase impossível não-lembrar. Essa é, sem dúvida, a pior maneira de lidar com o que nos aflige. Uns dizem que devemos encarar a vida, outros, que o tempo cuida de tudo...será?
Há, ainda, aqueles que preferem queimar recordações, como se o fogo pudesse reduzir a cinzas todo e qualquer vestígio do que passou. Se nem a água e nem o vento aceitam, de fato, o que não lhes pertence, por que o fogo se prestaria a isso?
Nem água, nem vento, nem fogo. O que dá certo mesmo é enterrar tudo e ponto final...Bom, não. Isso também não resolve nada. Se o passado pudesse ser enterrado, não existiria, quase, infelicidade, visto que as pessoas enterrariam suas tristezas cada vez que as tivessem. Como sabemos que isso é puramente irreal, anulamos mais uma forma de não-lembrar.
No final de tudo, percebemos que não se pode apagar o que nos faz mal, já que, por mais terríveis que sejam, as nossas dores fazem com que tenhamos uma história. Toda história real e verdadeira precisa de fatos reais e verdadeiros, ainda que nos doa possuí-los. Claro que é necessário fugir, fantasiar, deixar a água levar, jogar ao vento, deixar o fogo queimar e claro, enterrar experiências ruins, ainda que saibamos que o que faz parte de nós não pode, de fato, ser apagado por nada, simplesmente porque faz parte de nós e do que nos faz, a cada ferida assoprada, a cada lágrima derramada, seres humanos.


by Laís Scodeler

Um comentário:

Abidul disse...

Excelente texto
adorei mesmo
muito bom
aplausos de pe!!!!
o tempo pode nao ser tudo mesmo, mais e um excelente amigo!!
:)
parabens scodeler!!
bjsssssss